MISSIONÁRIA

TERCEIRA PARTE – A BÍBLIA NA IGREJA

 
 
 
 
Como Entender a Bíblia
            Há milhares de anos as sagradas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento vêm sendo alvo de estudos ininterruptos de multidões de leitores da Bíblia. Isso significa que no centro da vida espiritual dos cristãos está um documento precioso que contém um tesouro de sabedoria sagrada e a essência de sua revelação.
A Bíblia é na realidade uma biblioteca de obras escritas por muitos autores diferentes. Empregam-se todos os tipos de estilo literário, e a Bíblia contém, de fato, quase todos os tipos de literatura já escritos.
O estudo das Escrituras Sagradas é uma obrigação necessária para qualquer cristão instruído e também uma responsabilidade sagrada para os que levam a sério à fé.
 
A abordagem
Um estudo bíblico sério deve ser abordado com o conhecimento de que a Bíblia convida nossa investigação e que é possível aprender profundamente com ela.
Compreender a Bíblia não é só uma questão de aprender os muitos fatos e detalhes da história bíblica. A prática da verdade das Escrituras talvez seja o conceito mais importante a ser compreendido antes de nos lançarmos ao estudo sistemático da Bíblia.
 
O espírito
Como ocorre com qualquer outro assunto que decidimos estudar, nosso sucesso depende do espírito com que começamos. Esse espírito engloba sede e fome da verdade. Outro aspecto essencial do espírito certo para o estudo da Bíblia é um pouco mais difícil de explicar. Trata-se da necessidade de ambigüidade quando preciso. Ambigüidade é a disposição de permitir que as questões permaneçam indefinidas ou inconcludentes até que tenhamos mais informações ou um entendi­mento melhor.
 
 
 
Instrumentos e preparo
Para estudar a Bíblia, é bom ter duas ou três traduções da Bíblia fáceis de ler e talvez uma versão parafraseada. Em seguida, o estudante deve adquirir uma concordância bíblica completa, ou seja, um índice das palavras usadas em alguma tradução importante.
Há muitos manuais e comentários bíblicos. Alguns, como este que você está lendo agora, fornecem uma quantidade considerável de dados básicos para o estudo da Bíblia.
Para estudos avançados da Bíblia é possível aprender a usar léxicos, dicionários e comentários críticos avançados.
 
Os métodos
Dois métodos básicos de estudo bíblico são o estudo tópico e o exegético. Estudo tópico significa que você escolhe um tópico ou assunto e o segue por toda a Bíblia, procurando todas as formas em que ele é usado ou discutido pelos autores das Escrituras.
O estudo exegético é diferente do estudo tópico porque, em geral, toma um livro específico ou uma passagem de um livro da Bíblia e o estuda em profundidade, observando níveis diferentes na passagem em particular e nos textos que a cercam.
O estudo exegético pode ou começar por “dentro” de certa passagem e caminhar para fora dela, ou por “fora” e seguir para dentro. Mas imagine um círculo com cinco círculos semelhantes menores em seu interior. Para compreender as Escrituras é importante passar por todos os círculos. Se começarmos por “dentro”:
- o 1º círculo é o significado das palavras em seu contexto imediato.
- no 2º círculo, o texto é colocado dentro do contexto mais amplo da vida e das circunstâncias do autor do livro, o que estava “em torno” dele.
- o 3º círculo observa o ambiente histórico e cultural mais amplo e as influências que prevaleceram e ajudaram a criar essa obra literária.
- o 4º círculo reúne os temas de toda a Bíblia para formar um mosaico de pensamento que dá direção a todo o nosso estudo.
- o 5º círculo é a área de nosso mundo, onde nossas necessidades presentes como indivíduos e como comunidades cristãs são expressas e expostas à sabe­doria das Escrituras.
 
Os resultados
Cada cristão é um participante ativo no processo de compreensão da mensagem da Bíblia. Como membro da comunidade cristã, cada um que estuda a Bíblia se coloca dentro de todos esses níveis de sentido e pode usá-los como lentes, por meio das quais examina a verdade de Deus. O sentido da Bíblia não é, portanto, algo estático. Ele é extremamente dinâmico. O que ocorre pessoalmente com cada um de nós e com nosso mundo convida a verdade da Palavra de Deus a atuar sempre de modo diferente, e somos desafiados por ela a nos transformar em novas criaturas. Devemos esperar que o estudo da Bíblia ajude a revolucionar nosso entendimento, nosso comportamento, nossa percepção do mundo e de nós mesmos e que isso nos conduza a um relacionamento mais íntimo com o próprio Deus.
 
 
A Leitura da Bíblia
            Afirma-se que hoje vendem-se mais Bíblias do que qualquer outro livro. Indaga-se, é claro, se existe uma cor­relação exata entre as Bíblias vendidas e as Bíblias lidas. Ela é a autoridade máxima para o ensino da igreja e tem sido o texto que inspira e enriquece a vida dos cristãos de todas as eras em todos os lugares.
 
A Bíblia como biblioteca
A Bíblia é de fato uma biblioteca de muitos livros escritos por uma grande variedade de autores, em épocas distintas, com diferentes propósitos e em muitos estilos diferentes. Se estivesse numa biblioteca, é provável que você quisesse folhear os livros e familiarizar-se com a biblioteca toda. Depois descobriria todas as diferentes categorias ali presentes e começaria a ler de acordo com suas próprias necessidades ou interesses. Por fim você iria querer aprender a usar a biblioteca toda. É esta a proposta deste Manual Bíblico: familiarizá-lo com a biblioteca da Bíblia.
 
A leitura sistemática
Durante toda a história, os cristãos têm afirmado que a leitura regular e sistemática da Bíblia é de grande benefício espiritual. A leitura diária sistemática foi primeiramente usada pelos fiéis judeus e desenvolvida durante a época do exílio deles, quando, no culto nas sinagogas, desta­cavam-se leituras de diferentes trechos para cada dia.
 
A leitura contextualizada
Um costume adotado por alguns cristãos é a leitura selecionada de acordo com o contexto do “calendário eclesiástico anual”. Por esse calendário, algumas igrejas acompanham toda a vida de Cristo e lembram sua obra sobre a terra, dividindo o ano em sete períodos ou estações de diferentes durações, quase como a divisão da semana em sete dias. Cada uma dessas sete estações ou períodos destaca um aspecto diferente da vida de Jesus Cristo e da revelação e da atuação de Deus por intermédio dele.
 
Leitura acompanhada de oração para crescimento espiritual
As seguintes providências podem nos orientar na leitura para nosso desenvolvimento e crescimento espiritual:
1. Leitura audível. Leia cada trecho da Bíblia em voz alta. 
2. Reflexão ativa. Examine os muitos significados da leitura.
3. Aplicação cuidadosa. Estabeleça um diálogo pessoal e intenso com a leitura.
4. Ouça em oração. Sente-se em silêncio na presença de Deus e, atento, permita que o Espírito Santo ilumine suavemente sua mente e comece sua obra de transformação interior.
Cada aspecto da leitura geral da Bíblia delineado acima constitui um meio pelo qual as Escrituras podem tornar-se uma fonte de sustento espiritual.
 
 
O Ensino e a Pregação da Bíblia
 
          O ensino ou a pregação da Bíblia podem ser vistos como uma conversa a três: o professor fala ao aluno sobre a Bíblia, mas com o alvo de levar o aluno a se envolver pessoalmente com o texto. Começa seu preparo conversando com o texto, e por fim reúne pessoas que dialogaram com as Escrituras e agora dialogarão entre si, ocupando-se juntas do texto.
 
O preparo
O preparo do ensino ou pregação começa com uma tentativa de descobrir os possíveis significados do texto para o tempo presente e para o público específico para quem a lição ou o sermão está sendo preparado.
 
A interpretação bíblica
O processo de exame do significado de um texto bíblico é chamado exegese. O contexto teológico da Bíblia inteira também deve contribuir para determinar a mensagem do trecho.
Um texto popular às vezes tem sua interpretação padronizada e trans­mitida de forma acrítica de pregador para pregador.
Uma fonte única, humana ou escrita, pode resultar num entendimento muito limitado da passagem. É comum palavras em hebraico e grego possuírem vários sentidos possíveis, e a palavra ou o tempo verbal escolhido na tradução podem moldar o significado do texto.
 
Faça as perguntas certas
O professor deve examinar o texto no cenário da história da revelação de Deus e no contexto cultural específico em que o fato ocorreu. Um modo simples de abordar o texto é usando as perguntas que qualquer bom repórter faria: O que e por que? Quando e como? Onde e quem?
Os escritores bíblicos eram muitas vezes inspirados a empregar diferentes formas literárias para reduzir verdades divinas a formas compreensíveis para o intelecto humano.  Por isso a análise do cenário e do público é útil, principalmente no estudo dos evangelhos.
 
Conheça os ouvintes
O ensino ou a pregação eficaz exige que se tenha uma consciência contínua dos ouvintes durante todo o processo de preparação. O ensino e a pregação jamais são uma transferência de informações em si. A verdade deve ser traduzida por uma forma reconhecível na época presente. Essa tradução exige que se faça uma relação entre o desconhecido, o estrangeiro e o antigo com o conhecido, o familiar e o novo.
Jesus é um excelente modelo para o mestre ou pregador de hoje. Ele empregou figuras conhecidas para transmitir a verdade divina. Quando os mestres contemporâneos passam do significado do texto para a comunicação desse texto a um grupo específico de pessoas, eles precisam procurar imagens que as pessoas possam reconhecer.
 
 
Breve História da Interpretação da Bíblia
 
             Desde o início da igreja desenvolveram-se duas heranças: (1) uma que sustenta que o significado das Escrituras se encontra apenas em seu sentido primário, histórico e (2) outra que entende que o significado definitivo das Escrituras está em seu sentido pleno ou completo. Dessa distinção desenvolveram-se alguns modelos e combinações de modelos para a interpretação da Bíblia na igreja primitiva.
 
 
A igreja primitiva
Os pais apostólicos no século ii acompanharam o pensamento dos apóstolos. Para provar a unidade das Escrituras e sua mensagem, estudiosos como Ireneu (c. 140-202 d.C.) e Tertuliano (c. 155-225 d.C.) desenvolveram estruturas teológicas. Essas estruturas serviram como diretrizes de fé na igreja.
Mantendo a ênfase cristológica do primeiro século, a regra de fé esboçava as crenças teológicas que encontravam seu centro no Senhor encarnado. A interpretação bíblica alcançou novos níveis com o surgimento da escola de Alexandria no século iii, com o desenvolvimento da interpretação alegórica.
Quando a igreja entrou no século v, desenvolveu-se uma abordagem eclética e multifacetada de interpretação, que às vezes destacava o literal e histórico, e às vezes, o alegórico, mas sempre o teológico. Agostinho (354-430 d.C.) e Jerônimo (c. 341-420 d.C.) defini­ram os rumos desse período.
 
A Idade Média e a Reforma
Da época de Agostinho, a igreja, seguindo a lide­rança de João Cassiano (que morreu em cerca de 433), abraçou a teoria do sentido quádruplo das Escrituras:
1) O sentido literal era o que podia nutrir as virtudes da fé, esperança e amor.
2) O sentido alegórico referia-se à igreja e à sua fé, àquilo em que ela devia crer.
3) O sentido tropológico ou moral referia-se aos indivíduos e ao que eles deviam fazer, correspondendo ao amor.
4) O sentido anagógico indicava a expectativa da igreja, correspondendo à esperança.
Martinho Lutero (1483-1546), o grande reformador, começou empregando o método alegórico, mas depois afirmou tê-lo abandonado. Foi Erasmo (1466-1536), mais que Lutero, quem redescobriu a primazia do sentido literal. João Calvino (1509-1564), o intérprete mais coerente da Reforma, desenvolveu a ênfase no método histórico-gramatical como base para o desenvolvimento da mensagem espiritual a partir da Bíblia.
 
A era atual
A era atual testemunhou o surgimento e o desenvolvimento de várias abordagens críticas das Escrituras. A “Nova Hermenêutica” desenvolveu-se da abordagem existencial. Eles consideravam a interpretação como a criação de um “evento lingüístico” em que a linguagem autêntica da Bíblia confronta leitores contemporâneos, desafiando-os à decisão e à fé.
Além da hermenêutica existencial, entre os interesses recentes estão as abordagens lingüística, literária, estruturalista e sociológica. Essas abordagens tendem a destacar o contexto histórico de um texto e a vida em seu ambiente original.
A hermenêutica canônica deve estar atenta para não reduzir as ênfases distintas dentro do cânon em favor de harmonizações superficiais.
 
 
História das Versões da Bíblia em Inglês
         Todas as traduções em inglês foram motivadas por necessidades práticas.
 
As versões anglo-saxônicas
As primeiras Bíblias em inglês não eram inglesas de maneira alguma, e a rigor nem eram traduções. As verdadeiras traduções anglo-saxônicas começaram com a versão de Salmos feita por Aldhelm em cerca de 700 d.C.
 
Na Idade Média
A Bíblia em inglês fez poucos avanços durante os primeiros anos dos normandos, após 1066. O reformador John Wycliffe, destacando a função das Escrituras, teve a visão de traduzir toda a Bíblia para uso mais amplo.
 
Na Reforma
Tyndale. A Bíblia de Wycliffe foi um passo importante, mas uma oposição feroz, o trabalho pesado, o alto custo de produção e as rápidas mudanças lingüísticas reduziram seu impacto. William Tyndale foi o pioneiro, o incentivador e buscou patrocínio oficial publicar a edição aperfeiçoada de 1534.
The Great Bible (A Grande Bíblia). Coverdale, protegido pelo arcebispo Cranmer, fez então uma tradução rápida de toda a Bíblia a partir de fontes secundárias (1535); para tanto obteve autorização real.
As Bíblias de Genebra, do Bispo e de Rheims. Um Antigo Testamento revisado completou a Bíblia de Genebra em 1560. A versão incluía os apócrifos, mas negava especificamente sua autoridade canônica.
Authorized Version (AV, KJV). John Reynolds produziu uma versão da Bíblia revisada. Essa versão passou a ser chamada King James Version (kjv, Versão do Rei Tiago) ou Authorized Version (av, Versão Autorizada).
 
No período moderno
No período pós-Reforma. Trabalhos complementares na Bíblia em inglês tomaram três rumos diferentes: paráfrase, pesquisa acadêmica e modernização estilística. As paráfrases na realidade ten­tam interpretar o texto de maneira popular para o leitor.
No século xix. No século xix, estudos bíblicos avançados e a utilização cada vez maior logo geraram uma demanda de revisões que refletissem as conclusões acadêmicas e o desenvolvimento lingüístico.
A revisão americana obteve mais sucesso. Essa versão não só divergiu da rv em detalhes, como alcançou maior qualidade literária que conquistou o apreço de muitos leitores.
 
No século xx
O século xix concentrou-se principalmente no campo acadêmico, e o xx mostrou interesse especial na modernização. O final do século xx gerou novas tentativas de versões populares.
Nenhuma versão é perfeita, e é preciso realizar novos trabalhos quando surgem novos dados e a língua muda. A Bíblia não é um livro comum. É a Palavra escrita de Deus e carrega o testemunho autorizado da Palavra encarnada.
 
 
História das Versões da Bíblia em Português
          O início das traduções da Bíblia para o português remonta à Idade Média. O rei D. Diniz (1279-1325) é considerado o precursor dessa tão nobre tarefa.
Foi o protestante português João Ferreira de Almeida, nascido em 1628, próximo a Lisboa, quem marcou a história como o primeiro tradutor a trabalhar a partir das línguas originais.
No início do século xx, em 1917, foi publicada no Brasil uma tradução bastante literal e erudita que teve a colaboração de Rui Barbosa. Ficou conhecida como a Tradução Brasileira e não é mais publicada atual­mente.
No cenário evangélico, merece destaque a Bíblia na Linguagem de Hoje (blh, Sociedade Bíblica do Brasil — 1988), feita intencionalmente em linguagem popular, sob uma filosofia de tradução mais flexível, mas baseada em exegese erudita e respeitada.
Mais recentemente foi lançada a Nova Versão Inter­nacional (nvi), publicada em março de 2001 (Novo Testamento em 1994); trata-se de versão fiel ao sentido do original e em linguagem contemporânea.
 
 
As Diferenças nos Manuscritos da Bíblia
 
            Antes da invenção da imprensa por volta de 1450, todos os livros eram escritos e copiados à mão. Uma obra escrita à mão é chamada manuscrito. As diferenças entre as cópias dos livros do Antigo ou do Novo Testamento são chamadas leituras variantes.
Não é de admirar que haja diferenças nos manuscritos antigos. O processo laborioso de cópia à mão levava inevitavelmente a erros acidentais. Além dos erros acidentais, parece que alguns escribas desviavam-se deliberadamente do texto que estavam copiando, com a intenção de corrigir erros anteriores.
A quantidade de variações nos manuscritos hebraicos do Antigo Testamento é relativamente pequena. A maior parte dos manuscritos, porém, é medieval — afastada dos originais em mais de mil anos. Exceções notáveis são os manuscritos de trechos relativamente pequenos do Antigo Testamento encontrados em Qumran e escritos por volta do início da era cristã, ou seja, alguns dos Manuscritos do Mar Morto.
Por causa do grande número de leituras variantes nos manuscritos bíblicos antigos, não é “simples” traduzir do hebraico ou grego para alguma língua moderna. Além de manuscritos hebraicos e gregos, os estudiosos também empregam as versões antigas (traduções) na tentativa de restaurar o texto original.
Um tipo de texto é um grupo de manuscritos, versões e citações antigos em grego que têm muito em comum. Em geral, o tipo considerado mais confiável é o alexandrino. Outro tipo reconhecido pela maioria dos estudiosos, mas nem todos, é o ocidental. Seus membros não têm tanto em comum entre si como os do tipo alexandrino e bizantino, mas remontam a meados do século ii.

 
Para melhor compreensão deste assunto leia o texto completo no Manual Bíblico:
FONTE:
Edições Vida Nova e Co-Instruire – Consultoria e Assessoria em Educação